Os Fundos de Fundos

Willy Werlang • 13 de junho de 2020

Fundos de Fundos são aqueles que investem a maior parte do seu patrimônio em cotas de outros fundos de investimento. A modalidade é prevista e regulada pela iCVM 555 e se constitui em uma das mais inovadoras e flexíveis do mercado brasileiro.


A aplicação mais direta desta modalidade é realizada por gestoras e family offices que operam uma estratégia específica de seleção de fundos visando trazer um melhor desempenho. Ao longo do tempo, essa seleção pode ser ajustada com facilidade, e os resultados maximizados. Dado o baixo custo de implementação e operação, é uma alternativa inteligente para a diversificação de investimentos e para a implementação de alocações dinâmicas.


Outra grande vantagem dos Fundos de Fundos (ou FICFI, sigla para Fundo de Investimento em Cotas de Fundos de Investimento) é a possibilidade de criar estratégias de distribuição variadas para a mesma tese de investimento. Uma gestora pode lançar um fundo master com uma tese inovadora e ter diversos FICFI em parceria com distribuidores distintos, com públicos e regiões diferentes. Estes FICFI são montados para investir seus recursos exclusivamente no fundo master. Esta estratégia maximiza o sucesso deste fundo, pois o expõe a um universo de parceiros e demografias maior do que ele poderia acessar diretamente, permitindo que mais investidores tenham acesso a ele.


Na prática, no entanto, os FICFI são utilizados para fins menos nobres. Como não há restrição para a quantidade de níveis para o arranjo master-FICFI, ele é usado para esconder custos do investidor. Veja o caso a seguir:

Fundo Master: SAFRA RENDA FIXA FUNDO DE INVESTIMENTO RENDA FIXA (Rentabilidade 12m: 6,08%, Taxa de Administração: 0,05%)


É oferecido ao público através da seguinte estrutura:


1.SAFRA EXECUTIVE MAX RF FUNDO DE INVESTIMENTO EM COTAS DE FUNDOS DE INVESTIMENTO (Rentabilidade 12m: 4,95%, Taxa de Administração: Mín de 0,25% Máx de 1%)

que investe 99,96% do seu patrimônio no


2.SAFRA EXECUTIVE CORPORATE RENDA FIXA FUNDO DE INVESTIMENTO EM COTAS DE FUNDOS DE INVESTIMENTO (Rentabilidade 12m: 5,25%, Taxa de Administração: Mín de 0,25% Máx de 0,75%)

que investe 83,29% do seu patrimônio no


3.SAFRA EXECUTIVE FUNDO DE INVESTIMENTO EM COTAS DE FUNDOS DE INVESTIMENTO RENDA FIXA (Rentabilidade 12m: 5,57%, Taxa de Administração: Mín de 0,25% Máx de 0,5%)


que investe 92,13% do seu patrimônio no


4.SAFRA EXECUTIVE PREMIUM FUNDO DE INVESTIMENTO EM COTAS DE FUNDOS DE INVESTIMENTO RENDA FIXA (Rentabilidade 12m: 5,85%, Taxa de Administração: Mín de 0,2% Máx de 0,25%)


que investe 100% do do seu patrimônio no master


5.SAFRA RENDA FIXA FUNDO DE INVESTIMENTO RENDA FIXA


que por sua vez investe em ativos “reais”: Títulos Públicos (36,40%), Operações Compromissadas (35,01%), Depósitos a prazo (21,63%), Debêntures Simples (5,35%) além de outros de menor representatividade.


Como o cliente só vê o primeiro fundo da lista (o SAFRA EXECUTIVE MAX), não é capaz de analisar como a rentabilidade sofre com o encadeamento sequencial dos fundos e como as taxas de administração vão se acumulando. No caso acima, a rentabilidade desce de 6,08%aa (no master) até 4,95%aa no SAFRA EXECUTIVE MAX, e as taxas de administração mínimas somam 1%aa, contra 0,25% do primeiro fundo. As máximas somam 2,55%aa, contra 1% do primeiro fundo. Isso em um fundo de Renda Fixa, cuja gestão é das mais simples que há.



Essa estratégia é comum em grandes bancos, que controlam rigidamente os produtos que estão disponíveis para seus clientes. No caso acima, apenas o SAFRA EXECUTIVE MAX estaria acessível no site do banco para o cliente. É muito raro um portfolio de investimentos em bancos que não tenha FICFIs escondendo cobranças multinível. No Safra, dos 662 fundos registrados em nome da sua gestora, a Safra Asset Management, 503 são FICFI.


As gestoras e corretoras independentes têm atuado contra essa prática, que apesar de legal, não respeita os interesses do investidor. Este deve buscar esclarecer junto ao seu assessor ou gerente se os FICFI em sua carteira se destinam à diversificação ou a facilitar o acesso a masters de boa qualidade, como discutido no início deste artigo, ou se escondem uma pirâmide de outros fundos, os quais existem apenas como estruturas de custo.


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